domingo, 6 de dezembro de 2009

Exercício experimental de liberdade


Inconformismo estético, inconformismo social, Hélio Oiticica

O imaginário da revolução mobiliza o sentido político da vanguarda nos anos 60. Programas, manifestos, declarações, intervenções e obras compõem uma atividade extensa, que manifesta, na experimentação, o desejo de transformação social. A produção artística responde ao que se apresentava naquele momento, particularmente no período 1965-68, como necessidade: articular a produção cultural em termos de inconformismo e desmistificação; vincular a experimentação de linguagem às possibilidades de uma arte participante; reagir à repressão. Experimentação e participação agenciam uma outra ordem do simbólico (o comportamento), visando a instaurar a “vontade de um novo mito”; uma imagem da arte como atividade em que não se distinguem os modos de efetivar programas estéticos e exigências ético-políticas.
O imaginário de Oiticica é aquele que se interessa, não pelos simbolismos da arte, mas pela função simbólica das atividades, cuja densidade teórica está na suplantação da pura imaginação pessoal em favor de um “imaginativo” coletivo. Isto se cumpre quando as atividades possuem visão crítica na identificação de práticas culturais com poder de transgressão; não pela simples figuração das indeterminações e conflitos sociais, ou, ainda, pela denúncia da “alienação” dos discursos (totalizadores) sobre a “realidade brasileira”. A participação coletiva (planejada ou casual) provém da abertura das proposições; evita as circunscrições habituais da “arte” e o puro exercício espontaneísta de uma suposta criatividade generalizada. O essencial das manifestações antiartísticas é a confrontação dos participantes com situações; concentrando o interesse nos comportamentos, na ampliação da consciência, na liberação da fantasia, na renovação da sensibilidade, desterritorializam os participantes, proscrevem as obras de arte, coletivizam ações.
Toda a experimentação de Oiticica compõe um programa coerente que problematiza a situação brasileira e internacional da criação e se desenvolve como versão da produção contemporânea que explora a provisoriedade do estético e ressignifica a criação coletiva, a marginalidade do artista, o político da arte. A tendência básica do programa é a transformação da arte em outra coisa; em “exercícios para um comportamento”, operados pela participação. Ora, a virtude própria dos comportamentos é a de se manifestarem sem ambigüidades, como potências de um puro viver; apontam para um além-participação, em que a invenção enfatiza os processos, explorando o movimento da vida como manifestação criadora. Prática revolucionária, a transmutação da arte em comportamento se dá quando o cotidiano é fecundado pela imaginação e é investido pelas forças do êxtase. Desrealizados, os comportamentos libertam as possibilidades reprimidas; afrouxam a individualidade, confundem as expectativas: manifestam poder de transgressão. Esse modo de atuação rompeu com as propostas de resistência em desenvolvimento no país, apontando para práticas alternativas. Desacreditando dos projetos de longo alcance, de concepções históricas feitas de regularidades, essa atitude desligou o finalismo, afirmando o poder de transgressão do intransitivo.

Celso Favaretto



Parte do depoimento da artista plástica Regina Vater, amiga de Hélio (Após o incêndio de 17 de outubro)

Primeiro, quero ressaltar que Hélio, durante todo este tempo de nossa bela amizade, continuou produzindo sua obra com extremo cuidado, carinho e precisão. Era um amante da precisão, a ponto de que, por exemplo, se ele estivesse batendo à máquina (lembre-se que naquela época não existiam computadores, e nem me lembro se Hélio tinha máquina elétrica, me parece que não, já que seu dinheiro era ultra-incerto) e cometesse um erro, ele jamais usava a tinta branca de correção, mas tirava imediatamente o papel da máquina e começava a bater tudo de novo. Juro que o vi fazer isso várias vezes.
Hélio vivia numa extrema frugalidade. SEMPRE viveu assim e foi até mais frugal depois que voltou para o Brasil. E foi dentro desta pobreza franciscana (Hélio morreu dormindo num colchão, no chão, naquele apartamento que a Sônia, ex-mulher do Jorge Salomão, emprestou para ele). Foi dentro desta grande precariedade que ele continuou criando a sua obra. Tecida das veias da adversidade.Por exemplo, Hélio nunca pegava táxi. Não tinha dinheiro para isto. Mas nem por causa disso eu o vi se queixando. Não se queixava jamais. Achava até gostoso andar de ônibus. Dizia que quando eles disparavam, no Aterro, ele curtia um ‘barato’.Lógico que de vez em quando pintava 'grana', mas não da arte, desta nunca!, já que ele era 'marginal ao mercado.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O PRIMEIRO DIA - XIX Festival de Esquetes Elbe de Holanda

"É preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. Os homens começam com medo, coitados. E terminam em fazer o que não presta quase sem querer. É medo. [...] Medo de muitas coisas. Do sofrimento. Da solidão. E, no fundo de tudo, medo da morte." [O AUTO DA COMPADECIDA – ARIANO SUASSUNA]





Notícia das melhores: mal saiu da Mola e a Engrenagem já tem agendada uma nova apresentação!


Isso mesmo! Fomos selecionados para o IX Festival de Esquetes Elbe de Holanda (veja mais informações no link), o mesmo que há exato um ano atrás foi responsável pela estreia da companhia e onde fomos indicados ao Prêmio Revelação, por Tudo Aquilo que Eu Esperava.


Iremos abrir o festival, dia 07/11, às 20hs, com o esquete O Primeiro Dia, do qual já falamos aqui há um tempo atrás.


Dentro do processo de pesquisa e criação da Companhia Engrenagem de Arte Revolucionária, em determinado momento, nos deparamos com o álbum Transversal do Tempo Ao Vivo, da cantora Elis Regina. Lançado em 1978, a temática do espetáculo permanece atual. As músicas falam de desencontros, injustiças, (des)amores, degradação ambiental, política, solidão, medo, entre outras coisas. Elis Regina definia o show como jornalístico. Nós percebemos que havia um material especialíssimo. Naquele show e naquelas músicas encontravam-se os temas que queríamos, há muito, abordar.

Mas como a Cia. colocaria isso na prática?

Optamos por trabalhar a intertextualidade das canções. As entrelinhas. O sentimento macro embutido na letra. É importante ressaltar que as músicas em momento algum serão executadas durante a cena. Elas apenas serviram de base para a construção de um personagem.

Foi realizada uma pesquisa literária e cinematográfica. A Cia. Engrenagem foi atrás de obras da literatura mundial e do cinema nacional, cujo texto e discurso, entrassem em concomitância com as músicas do disco de Elis Regina. Entramos em contato com as obras de Lucia Murat, Bertold Brecht, Eduardo Galeano, Maria Adelaide Amaral, e, entre outros, Mia Couto, Walter Salles e Daniela Thomas.


Um dos sentimentos e temas que a Cia. quis trazer à tona é o medo. Nos dias de hoje, as pessoas têm medo de tudo. Estão reféns de várias coisas. Violência, opressão. Claustrofobia. A falta de folhas, de escolhas, de ar. E o filme O Primeiro Dia, de Walter Salles e Daniela Thomas, aborda esse tema.

O primeiro passo foi a adaptação. O roteiro do esquete passou por diversos tratamentos, onde cada personagem foi construído através ou da intertextualidade de uma música, ou através de referências literárias – no caso específico desse esquete, o autor moçambicano Mia Couto.

Ainda no campo da pesquisa, ao nos decidirmos por O Primeiro Dia, a cena já se delineava: uma cidade em meio ao fim do milênio. Inseridos nela, três personagens distintos, mas com destinos cortados pelo mesmo sentimento: medo. Investimos, então, na busca desses personagens. Quem são? Qual sua relação com a vida? Com o lugar? Com os outros? Qual o grito preso na garganta de cada um? Nos deparamos, então, com a seguinte frase da cineasta Lucrécia Martel:
"acho que a gente não precisa saber tudo do personagem. de onde vem, pra onde vai. podemos trabalhar com mistérios. eu vivo há cinco anos com uma pessoa e não sei tudo dela. e nem vou saber. é bom preservar os mistérios".

E é nesse mistério que se baseia a encenação de O primeiro dia. A encenação é feita através do jogo com espelhos, criando um clima de tensão e, ao mesmo tempo, libertação dos personagens. Uma flor é a metáfora de uma arma de fogo e a morte se dá ao recebê-la e se desvencilhar de uma peça de figurino, que cai, ao lado do personagem, que se liberta. Os atores são vestidos de acordo com os humores e opressões daqueles que representam com intensidade: João, Chico e Maria.

Um trabalho intenso, visceral.


Esperamos vocês nesse primeiro dia!

BALANÇO DA MOLA - 2009

Circo Voador lotado, inúmeras manifestações artísticas, arte por todos os cantos! Quatro dias muito intensos.

No sábado, o público lotou a tenda verde onde foi a apresentação e a Engrenagem novamente fez bonito!

Foi emocionante ver a plateia interagindo com a cena. Pessoas que paravam à porta da tenda para dar uma espiada e logo eram pegas por Plínio e Nelson em cena, fazendo-os ficar ali, procurar um cantinho em meio às almofadas e colchonetes, ou até ficando em pé mesmo, mas com largos sorrisos nos rostos e palmas entusiasmadas ao final.

Valeu Juliana Sansana e Curadoria de Cênicas da MOLA!
Valeu, Mola!
Valeu, Circo Voador!
Valeu, galera!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

CON$UMADO - 3º Ato - Tudo Aquilo que Eu Esperava

A MOLA - Mostra Livre de Artes começa amanhã!

Neste quinto ano, quatro dias seguidos de evento, de 28 a 31 de outubro, os portões do Circo Voador estarão abertos a partir das 20:00hs. A entrada será GRATUITA até as 21:30hs! Após esse horário, o ingresso custará R$ 20,00, mas com meia entrada para estudantes, ou doando um livro, ou um gibi. Não dá pra perder, né?

Além do palco, o espaço do Circo, foi dividido em 3: Picadeiro (pista em frente ao palco); Quintal (área externa entre as palmeiras) e Tenda Cênica (uma tenda de cor branca q será iluminada cada dia por uma cor). Espalhados e divididos por esses espaços performances, poesia, artes plásticas, cinema, arte circense, música e teatro.

A Cia Engrenagem de Arte Revolucionária, apresenta no último dia, 31/10, na Tenda Cênica, o

Con$umado - 3º Ato - Tudo Aquilo que eu Esperava

Sim, como vocês já devem ter visto aqui no blog, ele faz parte do Con$umado, fruto da pesquisa da Companhia sobre o Consumismo. Devido a adaptação para o espaço e evento, visto que serão diversas atrações numa só noite, é que apresentaremos o que denominamos de 3º Ato.

Não deixem de comparecer, nos prestigiar e prestigiar esse mix de arte livre!!!

A programação completa da MOLA está no site do Circo Voador:


Nos vemos lá!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

ENGRENAGEM na MOLA-Mostra Livre de Artes 2009 / CIRCO VOADOR!

A Engrenagem foi selecionada para a quinta edição da MOLA-Mostra Livre de Artes, que acontece anualmente no Circo Voador!

Nossa apresentação será dia 31/10/09, em horário ainda a ser definido pela produção. Todos podem confirmar a programação, bem como tudo que rola nesse super evento no site do Circo Voador (é só clicar no link!).


Confiram e compareçam! Esperamos vocês lá!


"A MoLA - Mostra Livre de Artes - chega ao seu 5º ano se afirmando como o quintal das ideias. Então se a MoLA fosse uma conta matemática, não tenha dúvidas de que seria a soma. Porque é a união de jovens produtores, mais artistas que querem dizer ou cantar ou pintar ou encenar ou reproduzir alguma coisa, mais um público interessado que só cresce a cada edição, que torna a MoLA um verdadeiro quintal de todas as idéias! Neste quinto ano, teremos quatro dias seguidos de evento, de 28 a 31 de outubro, com entrada franca até determinado horário, e atrações na área da música, cinema, teatro e artes plásticas. E uma ou outra coisa que a gente ainda não sabe classificar. Como serão estas apresentações, nós vamos descobrir juntos. A única certeza que temos é que, se chegamos até aqui, não fizemos isso sozinhos!"






quinta-feira, 8 de outubro de 2009

para nos seguir...




segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Adiós, La Negra!

Aos 74 anos, morre a cantora Mercedes Sosa

A cantora argentina Mercedes Sosa morreu neste domingo, no hospital Trinidad, em Buenos Aires, onde estava internada desde meados de setembro. Os motivos divulgados de sua morte foram complicações renais e hepáticas, além de problemas respiratórios. A intérprete de 74 anos sofria do Mal de Chagas desde o final dos anos 1970. As vozes mais à esquerda poderiam resumir o parágrafo acima a quase um slogan: "a voz dos sem voz se calou". O coro postado mais à direita provavelmente se sentiria aliviado: durante a ditadura militar que governou a Argentina entre 1976 e 1983, Mercedes era o grilo falante e cantante que insistia em evocar a consciência de que a intolerância e a perseguição política não se afina com a dignidade humana. Deixando de lado as paixões políticas, seria justo dizer que morreu uma das principais cantoras latino-americanas, a voz maior de clássicos como Volver a los 17, uma artista que ignorou fronteiras artísticas e geográficas, celebrando um ideal latino ao dividir canções, álbuns e palcos com Milton Nascimento, Charly García, Fagner, Antonio Tarragó Ros, Beth Carvalho, Joan Manuel Serrat, Shakira e Fito Páez. Para aquela que imortalizou Gracias a la Vida (da chilena Violeta Parra), a boa música exigia independência artística. Por exemplo, no show que La Negra (apelido recebido pela cor de sua vasta cabeleira) fez há dois anos nem Porto Alegre, o repertório incluía Coração de Estudante (Nascimento e Wagner Tiso), mas também Gente Humilde (Garoto, Vinicius de Moraes e Chico Buarque) e Un Vestido y un Amor (Páez) e El Cosechero, que ela interpretou ao lado de seu amigo Luiz Carlos Borges, acordeonista gaúcho. Na entrevista que concedeu a Zero Hora em 2007, Mercedes mostrou que sua o fato de colocar sua voz forte incondicionalmente a serviço de quem é fraco não a fazia perder sua lucidez. Comentando avanços sociais e políticos na América Latina, ela cravou: — Não é a esquerda que está no poder, são alguns políticos de esquerda que estão no poder. Depois do desmembramento da União Soviética, o capitalismo está sozinho. Essa lucidez sempre custou caro a Mercedes. Ela teve de exilar-se em Madri entre 1979 e 1982, depois de receber ameaças de morte de grupos extremistas de direita. Sua partida, inclusive, foi precipitada por um show que fez em La Plata, quando ela e todo o público que a tinha ido assistir foram detidos. Porto Alegre também foi testemunha de um episódio de provocação terrorista contra ela. Em 1980, durante um show no Gigantinho, alguém detonou uma bomba de efeito moral para provocar correria e choro entre a plateia e inviabilizar o concerto da argentina. Até que Mercedes assumiu o comando com sua voz, e acalmou o público, que se juntou a ela em um coro emocionado. Anos mais tarde, Mercedes recebeu uma homenagem mais formal de parte dos gaúchos: em 1996, ela foi agraciada com a Medalha Simões Lopes Neto, outorgada pelo governo do Rio Grande do Sul. Um dos últimos reconhecimentos que Mercedes recebeu foram três indicações para o Grammy Latino 2009 pelo álbum Cantora 1, que reúne duetos dela com vários artistas. O anúncio do vencedor será realizado no dia 5 de novembro em Las Vegas, mas o resultado da vida de Mercedes já é conhecido desde há muito tempo: La Negra iluminou com sua voz alguns dos tempos mais escuros que a América Latina já experimentou.

Nos últimos tempos, cansada e doente, assegurava estar feliz, rodeada de afeto. "Tenho sorte", dizia, "porém me custou muito". A Negra Sosa lutou até o final para cumprir os objetivos do Manifesto do Novo Cancioneiro que firmou em Mendonza, em 1964, quando tinha apenas 28 anos, no qual se propunha renovar a canção popular argentina para conseguir que "se integrasse na vida do povo, expressando seus sonhos, suas alegrias, suas lutas e suas esperanças".
[Fonte: Renato Mendonça-Zero Hora/RS]