domingo, 19 de outubro de 2008

Gláuber Rocha e o Cinema Novo



"Liberdade de invenção, liberdade de expressão. Porque Cinema Novo não é uma 'escola', não tem um 'estilo'. Pelo contrário, o estilo unânime, o modismo de um movimento torna-o retrógado, burguês, lúdico, porque se manifesta apenas ou com mais intensidade na área formal-artesanal da sua expressão. No Cinema Novo as expressões são, e têm que ser necessariamente, pessoais, porque fruto de experiências e pesquisas inéditas e inventivas, porque fruto de uma manifestação original. Nunca a gente pensou que o cinema devia ser uma profissão burguesa, uma arte de consumo ou uma indústria de sucesso. Era apenas um meio de comunicação mais avançado que os intelectuais de esquerda usavam porque todo mundo que fazia Cinema Novo queria naturalmente militância entre as práticas intelectuais, quer dizer, um grupo que deu um salto qualitativo porque ia em direção a um meio novo." (Glauber Rocha)

Reunião marcada para 21hs. Uma longa e proveitosa noite começava, onde debateríamos e conheceríamos mais do Cinema Novo do Glauber Rocha e veríamos o seu filme A Idade da Terra.

Glauber Rocha sempre prezou o compromisso (assumido até o fim de sua vida) no que se refere ao estudo do Brasil, suas convicções nacionalistas, tendo sido muito inspirado pela obra de José Lins do Rego que, na sua compreensão, tinha sido o autor de uma obra que se destacava não apenas pelas suas qualidades artísticas, mas, igualmente, como um documento de grande valor sociológico.
Desde o início Glauber se transformaria no mentor e teórico dos objetivos de sua geração, consolidando idéias que ainda estavam dispersas, mas que convergiam para um ponto comum, ou seja, um projeto de renovação, qualidade estética e brasilidade. Filmar o Brasil com técnicas novas, que desnudassem a sua realidade mais profunda e dramática, aquela que costumava ser embelezada e maquiada para passatempo das elites. No Brasil e na américa Latina o cinema deveria ser "empenhado, didático , épico e revolucionário". Um cinema sem fronteiras, de língua e problemas comuns, que levasse todas as experiências no sentido de educar o espectador e analisar a realidade do país. A estratégia do Cinema Novo era a criação de "filmes baratos, explosivos, bárbaros, radicais, antinaturalistas e polêmicos".
Há um aspecto que logo ressalta quando passamos a estudar o comportamento dos integrantes do Cinema Novo: não os ligavam apenas interesses profissionais. Agiam com consciência de coletividade, exprimindo um sentimento de coesão que não é comum encontrar no campo da criação artística, normalmente fracionado por ciúmes, disputas, invejas e rivalidades. A filmografia de cada qual é marcada por preocupações convergentes, ressaltando o objetivo de usar o cinema para estudar a realidade brasileira, além de zelar pela qualidade estética da linguagem e colocar em segundo plano interesses comerciais.
Glauber foi, acima de tudo, um idealista preocupado com o destino do homem. Tudo nele era superlativo e plural. Era nele poderoso o impulso pelas nobres causas, como foi o de Castro Alves, seu modelo, pelo combate à escravidão. Mas, embora tocado por um sentimento de justiça que já se desvanecera nas brumas dos tempos, como o foi o idealismo do século XIX, ele era, fundamentalmente, um homem de sua época. Daí a sua plena inserção num projeto revolucionário. Se fosse um homem comum, é provável que houvesse ingressado na guerrilha para combater a ditadura militar, obcecado pelo mesmo desejo de transformação que imolou Guevara. Como era um artista - e um artista do século XX - muniu-se de uma câmera de cinema (arte característica de sua época, mais que todas) para vergastar e combater a iniquidade social.
O filme A Idade da Terra impressiona e nos absorve totalmente. É extremamente atual, embora seja dos idos de 80, artístico, teatral e, sobretudo, crítico. Sua fotografia é de grande beleza. Quando lançado em Veneza, em 1980, o crítico Louis Marcorelles afirmou no "le Monde" que o filme não se enquadrava "em nenhuma das categorias conhecidas no cinema ocidental", representando um salto qualitativo conquistado pelo Terceiro Mundo. A mesma opinião era compartilhada pelo filho de Roberto Rossellini, o produtor Renzo Rossellini, que classificou o filme como "o maior desafio filosófico e formal que o Ocidente poderia receber no campo do cinema". O diretor Michelangelo Antonioni considerou o filme "uma lição de cinema moderno".

Sinopse do Autor: "O filme mostra um Cristo-Pescador, interpretado por Jece Valadão; um Cristo-Negro, interpretado por Antonio Pitanga; mostra o Cristo que é o conquistador português, dom Sebastião, interpretado por Tarcísio Meira; e mostra o Cristo Guerreiro-Ogum de Lampião, interpretado por Geraldo Del Rey. Quer dizer, os Quatro cavaleiros do Apocalipse que ressuscitam o Cristo no Terceiro Mundo, recontando o mito através dos quatro Evangelistas: Mateus, Marcos, Lucas e João, cuja identidade é revelada no filme quase como se fosse um Terceiro Testamento. E o filme assume um tom profético, realmente bíblico e religioso.
Trata-se de um filme que joga no futuro do Brasil, por meio da arte nova, como se fosse Villa-Lobos, Portinari, Di Cavalcanti ou Picasso. O filme oferece uma sinfonia de sons e imagens ou uma anti-sinfonia que coloca os problemas fundamentais de fundo. A colocação do filme é uma só: é o meu retrato junto ao retrato do Brasil. Esse filme estaria para o cinema talvez como um quadro de Picasso. Os críticos estão querento uma pintura acadêmica, quando já estou dando uma pintura do futuro. Na criação artística, o maior empecilho é o medo. Os autores que criaram grandes obras na América Latina venceram o medo para não sucumbir ao terrorismo do complexo de inferioridade. Eu, inclusive, rompi esse complexo no berro. Eu não tenho medo de criar, se tiver engenho e arte vou em frente. É necessário não ser babaca, pois a babaquice é o maior inimigo do artista.
Arnaldo Carrilho me disse uma vez diante das ruínas de Pompéia que Simon Bolicar subiu no Vesúvio e de lá meditou sobre a América Latina: daí partiu para sua ação política. Verdade ou mentira quero partir do vulcão. " (Glauber Rocha)

Muitas cenas se destacam nesse filme grandioso, de duas horas e meia, mas tão envolvente que nem sentimos este tempo passar. Quero aqui destacar duas delas:

  • O Cristo-Negro, de Antonio Pitanga, rodeado de operários e ao lado de um engradado de refrigerantes Coca-Cola (um símbolo capitalista), em uma cena em que, fazendo uma referência à passagem bíblica, brada que irá matar a sede de todos aqueles que têm sede, e começa abrir as garrafas do dito refrigerante e distribuí-las ao povo.
  • O Cristo Conquistador Português, de Tarcísio Meira, em plena bahia de Guanabara, mostrando um mar repleto de lixo e sujeira, brada repetidas vezes: "Isso é a cloaca do Universo! "

[Amanhecer de sábado, 06:00 da manhã. Final da reunião.]

Fontes: Livro Glauber Rocha-esse vulcão, de João Carlos Teixeira Gomes.

Um comentário:

Renata Brant disse...

Opa, galera!! Blza?
Com certeza vou colocar o link do blpg de vcs!!!
O NA VEIA é um programa de rock mas totalmente independente, por isso abre espaço para bandas novas, e q por sinal, tem mta coisa boa por ai!!
por ser independente, estamos todos no mesmo barco, seja na arte, na musica, no teatro, n o cinema.
enfim, vcs já viraram parceiros e se precisarem de um help, é só gritar!
bjao!!