quarta-feira, 19 de agosto de 2009

CONTAGEM REGRESSIVA!!!!!!!

Leituras, ensaios, discussões, ensaios, produção, discussões, a busca por salas de ensaio, mais ensaios, ocupações de espaços públicos para ensaiar, a busca por iluminação, mais ensaios, mais discussões, experimentações, longos e-mails, longas conversas, ensaios em tão-tão distante, mais discussões, risadas, abraços apertados, 11 horas seguidas de ensaio, sorrisos, descobertas, mãos dadas, vamos juntos, é isso aí, vamos juntos!

A hora vem chegando. Vem se aproximando em passos largos, em passos apressados. Ora descompassados, ora no compasso do dito tempo que nos enforca, mas que também abraça. Só nos cabe esperar a chegada, a batida de Molière dos três sinais, a entrada em cena. Tudo é feito de espera. Feito um Pedro pedreiro buarqueano, "esperando o sol, esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem, esperando um filho pra esperar também, esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o norte, esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim nada mais além que a esperança aflita, bendita e infinita do apito do trem."

CON$UMADO estreia dia 05/09/09
às 21:00hs
No Teatro Odisséia
Rua Mém de Sá, nº 66 - Lapa - Rio de Janeiro/RJ

Projeto ODISSÉIA EM CENA



domingo, 5 de julho de 2009

Vem aí... CON$UMADO

"Consumo: Ato ou efeito de consumir, consumação, gasto, dispêndio. Venda de mercadorias. Função da vida econômica que consiste na utilização direta das riquezas produzidas.
Consumado:
Que se consumou, acabado, terminado, realizado, Irremediável: Fato consumado.
Consumido:
Utilizado para satisfação de necessidades ou desejos. Desgastado, corroído, destruído.
Já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias e os bens simbólicos que nos revestem e cercam determinam um valor social. Desprovidos deles, estamos condenados ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão. Quanto vale um paraíso descartável???
A felicidade comprada é efêmera! Até que se compre o próximo lote."

Estamos há um longo tempo sem postar, devido a um convite que recebemos (diga-se de passagem com muita surpresa e de muito bom grado!) para subirmos aos palcos da cidade. A princípio, não era ideia da Engrenagem estreiar, pois ainda estamos em processo de pesquisas, investigações e experimentações de linguagens. Mas já com um trabalho em andamento, surgido principalmente das nossas pesquisas da Ditadura do Consumo, eis que surge nossa primeira temporada, com CON$UMADO.

Como exposto aqui no blog, em nossas pesquisas deparamo-nos com Bertold Brecht, que utilizava a arte (concebida como resultado de um processo de criação coletiva) como uma arma de conscientização e politização. Isso nos fez pensar em nosso papel enquanto artista, nossa capacidade e postura criativa e artística perante as engrenagens do mundo das artes e até que ponto podemos (ou não) nos tornarmos mercadoria dentro do esquema capitalista da sociedade. Parte do resultado dessa pesquisa é o que iremos apresentar.

Trata-se de uma trilogia acerca do Capital, formada por três esquetes:

  • Cidadão Consumo

  • Quinze Minutos

  • Tudo Aquilo Que Eu Esperava
Em Cidadão Consumo, temos o Homem às voltas com seu cartão de crédito, uma espécie de melhor amigo moderno ou semi-deus, criando a falsa ilusão de que tem o poder está em suas mãos. É possível refletir sobre quanto o capital leva aquele personagem ao escapismo, a fuga da realidade, a uma outra percepção dessa: uma realidade distorcida. Ele é vítima da Ditadura do Consumo, mas também uma cria da sociedade Capitalista.

Ambientado num Call Center, Quinze Minutos traz à cena os atrapalhados operadores de telemarketing Anderson e Mônica. Nesse esquete, está de volta o cartão de crédito, mas dessa vez não na mão de um homem, mas figurando como a empresa Mastercruzes, afiliada da Credocard. Vítimas de um sistema opressor de trabalho, onde a exploração do trabalho em prol do lucro do capital é clara, eles só querem pleitear melhores condições de trabalho: alguns minutos a mais em seus míseros quinze minutos de almoço!

O questionamento que envolve o ser humano acerca de sua vida é o foco principal do esquete Tudo aquilo que eu esperava. A ação se passa em um lugar inusitado: o “limbo”. E é neste lugar insólito e desconhecido que dois também desconhecidos se encontram. Nelson, um playboy moderno e milionário, cuja causa mortis foi a descoberta de ter uma vida sem miséria com tantos miseráveis ao seu redor e que o mundo é uma grande bolota de injustiça e hipocrisia. Plínio, por sua vez, é um cara honesto, trabalhador, de vida dura, que está passando por um dos piores dias de sua vida, tanto pessoal quanto profissional, e que acredita que a riqueza material poderia fazê-lo mais feliz. O encontro dos dois se dá quando Nelson pula da janela do oitavo andar de seu prédio e cai justamente em cima de Plínio.

Aguardem as novidades, em BREVE!!!!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

POR UMA ARTE REVOLUCIONÁRIA INDEPENDENTE

Leon Trotski e André Breton, tiveram em 1938, na Cidade do México, um encontro histórico de que resultou, após muitos debates entre eles e outros agentes culturais, este documento, cuja versão final foi elaborada por Breton e Diego Rivera, com a aquiescência de Trotski. Naquele momento nascia a F.I.A.R.I. – Federação Internacional da Arte Revolucionária e Independente – de vida efêmera mas importância histórica crucial.

[Compliação]



A arte verdadeira, a que não se contenta com variações sobre modelos prontos, mas se esforça por dar uma expressão às necessidades interiores do homem e da humanidade de hoje, tem que ser revolucionária, tem que aspirar a uma reconstrução completa e radical da sociedade, mesmo que fosse apenas para libertar a criação intelectual das cadeias que a bloqueiam e permitir a toda a humanidade elevar-se a alturas que só os gênios isolados atingiram no passado. Ao mesmo tempo, reconhecemos que só a revolução social pode abrir a via para uma nova cultura.

A oposição artística é hoje uma das forças que podem com eficácia contribuir para o descrédito e ruína dos regimes que destroem, ao mesmo tempo, o direito da classe explorada de aspirar a um mundo melhor e todo sentimento da grandeza e mesmo da dignidade humana.

A idéia que o jovem Marx tinha do papel do escritor exige, em nossos dias, uma retomada vigorosa. É claro que essa idéia deve abranger também, no plano artístico e científico, as diversas categorias de produtores e pesquisadores. "O escritor, diz ele, deve naturalmente ganhar dinheiro para poder viver e escrever, mas não deve em nenhum caso viver e escrever para ganhar dinheiro... O escritor não considera de forma alguma seus trabalhos como um meio. Eles são objetivos em si, são tão pouco um meio para si mesmo e para os outros que sacrifica, se necessário, sua própria existência à existência de seus trabalhos... A primeira condição da liberdade de imprensa consiste em não ser um ofício. Mais que nunca é oportuno agora brandir essa declaração contra aqueles que pretendem sujeitar a atividade intelectual a fins exteriores a si mesma e, desprezando todas as determinações históricas que lhe são próprias, dirigir, em função de pretensas razões de Estado, os temas da arte. A livre escolha desses temas e a não-restrição absoluta no que se refere ao campo de sua exploração constituem para o artista um bem que ele tem o direito de reivindicar como inalienável. Em matéria de criação artística, importa essencialmente que a imaginação escape a qualquer coação, não se deixe sob nenhum pretexto impor qualquer figurino. Àqueles que nos pressionarem, hoje ou amanhã, para consentir que a arte seja submetida a uma disciplina que consideramos radicalmente incompatível com seus meios, opomos uma recusa inapelável e nossa vontade deliberada de nos apegarmos à fórmula: toda licença em arte.

Ao defender a liberdade de criação, não pretendemos absolutamente justificar o indiferentismo político e longe está de nosso pensamento querer ressuscitar uma arte dita “pura” que de ordinário serve aos objetivos mais do que impuros da reação. Não, nós temos um conceito muito elevado da função da arte para negar sua influência sobre o destino da sociedade. Consideramos que a tarefa suprema da arte em nossa época é participar consciente e ativamente da preparação da revolução. No entanto, o artista só pode servir à luta emancipadora quando está compenetrado subjetivamente de seu conteúdo social e individual, quando faz passar por seus nervos o sentido e o drama dessa luta e quando procura livremente dar uma encarnação artística a seu mundo interior.

O que queremos:
a independência da arte - para a revolução
a revolução - para a liberação definitiva da arte.

Cidade do México, 25 de julho de 1938

sexta-feira, 17 de abril de 2009

JOGO CÊNICO


...os dois se abraçam...
"Sabe o que eu quero fazer?
Quero me batizar nesse mar aí.
Extravagar-me pelo avesso da corrente até o país dos sonhos.
O lugar além de todos os lugares..."


Além de dar continuidade ao estudo sobre Brecht e à pesquisa sobre as Ditaduras, iniciamos também nosso processo de criação textual.

O ponto de partida para o este processo foi o show Transversal do Tempo, da cantora Elis Regina, sobre o qual já falamos aqui e que faz parte da nossa pesquisa [ver em 15/12/08: http://ciaengrenagem.blogspot.com/2008/12/transversal-do-tempo.html]. Lançado em 1978, a temática do espetáculo permanece atual. As músicas falam de desencontros, injustiças, (des)amores, degradação ambiental, política, entre outras coisas. Elis Regina definia o show como jornalístico. E o propósito foi alcançado.
A partir de algumas músicas do show, selecionamos alguns textos oriundos da literatura mundial e do cinema nacional, nos quais vislumbramos os personagens que dariam corpo e voz àquelas canções. Fizemos o sorteio dos personagens e realizamos uma primeira leitura, ainda fria, apenas para conhecermos o texto.

Os autores selecionados foram Mia Couto e Maria Adelaide Amaral , representando a literatura – Estórias abensonhadas, Cada homem é uma raça, Luísa (Quase um história de amor). O cinema foi representado por Walter Salles, Daniela Thomas e Lucia Murat, através de diálogos dos filmes O primeiro dia e Que bom te ver viva.

As músicas que fizeram link com os textos foram Fascinação, Romaria, Sinal fechado, Caxangá, Meio termo, Cão sem dono, Deus lhe pague, Maravilha e Nada será como antes.

Na semana seguinte, a Engrenagem se reencontrou. Já com os personagens estudados, fizemos uma nova leitura, mais intencional. Ideias surgiram. Divergências também, o que é natural. Trabalho em equipe é isso mesmo. Ainda mais entre pessoas que se amam e respeitam acima de tudo.

O processo é contínuo e está a todo vapor!


Músicas x Personagens


1 - Fascinação - Jordão Qualquer (Conto "No rio além da curva" - Mia Couto)
http://www.youtube.com/watch?v=cjNFHV2mxAg
2 - Romaria - João (Conto "A Princesa Russa" - Mia Couto)
http://www.youtube.com/watch?v=IpPmjX-VjJ8
3 - Caxangá e Sinal fechado - Pedro 1 e Pedro 2 ("Que bom te ver viva" - Lucia Murat)
http://www.youtube.com/watch?v=bx0LAt_RG5E
4 - Meio termo - Raul, Pedro 1 e Pedro 2 ("Luisa – Quase uma história de amor)" - Maria Adelaide Amaral)
http://www.youtube.com/watch?v=lDRy8I2p2jY
5 - Cão sem dono - Maria e Chico ("O Primeiro Dia" - Walter Salles e Daniela Thomas)
http://www.youtube.com/watch?v=EsJzOePtqcs
6 - Deus lhe pague - João e Chico ("O Primeiro Dia" - Walter Salles e Daniela Thomas)
http://www.youtube.com/watch?v=pODeQioMGRU
7 - Maravilha e Nada Será como antes - João e Maria ("O Primeiro Dia" - Walter Salles e Daniela Thomas)
http://www.youtube.com/watch?v=LsRqraVYKbY
http://www.youtube.com/watch?v=n3IP87jw0Ks

domingo, 29 de março de 2009

SARAU DO ENGRENAGEM

Nesse último final de semana, demos uma parada em nossos estudos e pesquisas sobre Bertold Brecht para fazermos nosso primeiro Sarau, um dia após a comemoração do Dia Mundial do Teatro.
Um sarau livre, onde cada um pôde mostrar um pouco do que faz, do que gosta, do que acredita.
Começamos com uma mini exposição de artes plasticas, com 10 réplicas expostas por todo o recinto de obras de Edigar Degas, Vincente Van Gogh, Henri Rousseau, Pablo Picasso, Gustav Klimt, Franz Marc, Juan Gris, Egon Schiele. As obras foram expostas cronologicamente e passamos por cada uma delas, analisando e conhecendo um pouco mais de cada artista e da obra em si. Depois, fizemos um pequeno exercício linkando às obras pequenos textos de autores como Chaplin, Tarkowski, Tenesse Williams, Gláuber Rocha, Goethe, Almodovar.
Em seguida, passamos por uma exposição de "fotos-flagrantes". Imagens do dia a dia feitas em diversos lugares. Imagens reais e nas quais continuamente esbarramos, mas muitas vezes sem percebê-las. A exposição pretendeu lançar um olhar incômodo sobre diversas situações e utilizou versos de Mayakovsky e Brecht para melhor ilustrá-las.
Foram diversos textos e poemas lidos, tanto dos própios membros da Engrenagem quanto de autores como Eduardo Galeano, Fernando Pessoa, Fernanda Young, Carlos Drummond de Andrade, Charles Chaplin, Zé da Luz.
Também não faltou música e violão, de Secos e Molhados, Renato Russo, Roberto e Erasmo a Xangai e Chico Buarque.
Finalizando, criamos na hora uma instalação plástica, utilizando recorte e colagem, chamada "A forma das coisas". Demos forma aos nossos nomes, bem como à palavras escolhidas naquela hora, que tivessem a ver com nossa proposta e com a Engrenagem em si (Poesia, Teatro, Revolução, Criação, Estrutura e Loucos).

Foi um experimento ótimo, inspirador e que, além de estar carregado de emoção em diversos momentos, também provocou reflexões, que é nosso combustível essencial.

Mas as imagens falam mais que as palavras, por isso fica o convite para a visita ao nosso álbum do Picasa, bem ali, do lado direito da página, onde elas poderão ser melhor visualizadas! É so clicar e entrar, a casa é sua!

sexta-feira, 27 de março de 2009

27 DE MARÇO: DIA MUNDIAL DO TEATRO

O Dia Mundial do Teatro, criado em 1961 pelo Instituto Internacional do Teatro, é celebrado todos o anos, a 27 de Março, pelos centros nacionais do Instituto Internacional do Teatro e pela comunidade teatral internacional. São organizadas numerosas manifestações teatrais nesta ocasião, sendo uma das mais importantes, a difusão de uma mensagem internacional, tradicionalmente redigida por uma personalidade do Teatro, de renome mundial, a convite do Instituto Internacional do Teatro.
O International Theatre Institute (ITI), uma organização não governamental, foi fundado em Praga no ano de 1948 pela UNESCO e pela comunidade internacional do teatro.

Mensagem Internacional por Augusto Boal


Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver.
Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de idéias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!
Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática – tudo é teatro.
Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a platéia e a platéia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.
Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa - nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.
Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - "Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida".
Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.
Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!
Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!

sexta-feira, 13 de março de 2009

BERTOLD BRECHT

Elogio da Dialética
A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.
Os dominadores se estabelecem por dez mil anos.
Só a força os garante.
Tudo ficará como está.
Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.
No mercado da exploração se diz em voz alta:
Agora acaba de começar:
E entre os oprimidos muitos dizem:
Não se realizará jamais o que queremos!
O que ainda vive não diga: jamais!
O seguro não é seguro.
Como está não ficará.
Quando os dominadores falarem falarão também os dominados.
Quem se atreve a dizer: jamais?
De quem depende a continuação desse domínio?
De quem depende a sua destruição?
Igualmente de nós.
Os caídos que se levantem!
Os que estão perdidos que lutem!
Quem reconhece a situação como pode calar-se?
Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
E o "hoje" nascerá do "jamais".
[B.Brecht]


A Engrenagem segue na sua proposta de estudo e pesquisas e, no momento, estamos mergulhados no mundo brechtiniano.

Bertold Brecht, um dos nossos esenciais, é um dos escritores fundamentais por ter revolucionado teórica e praticamente a dramaturgia e o espetáculo teatral, alterando de forma irreversível a função e o sentido social do teatro, utilizando a arte, concebida como resultado de um processo de criação coletiva, como um arma de conscientização e politização.
O pensamento de Brecht nunca é dogmático. Qualquer juízo crítico sobre sua obra é sempre relativo. Ele reescreveu tudo até morrer, nunca considerando um trabalho como acabado, nada como definitivo.Seu pensamento foi sempre ágil, resultado de contradições e contraditório também, experimental, circunstancial e sempre profundamente dialético. Tem como fundamento de sua criação seu pensamento político.
Toda a obra de Brecht virá a ser a luta contra o capitalismo e contra o imperialismo. A reflexão sobre a situação do homem num mundo dividio em classes. Filho de um industrial, nascido para ocupar seu lugar na produção ao lado dos patrões, Brecth não fabricará papel mas, sim, palavras para preencher papéis. Palavras que serão armas contra sua própia classe, tendo optado pelo lado dos operários, tornando-se o mais expressivo poeta revolucionário deste século.
Para Eric Bentley, Brecht é a corporização do espírito de oposição, resistência e contradição, levado ao extremo da contrariedade, do pensamento combativo. Sua vida repousa na alegria da luta, no deleite da oposição. E isto o transforma no intelectual marxista da sociedade capitalista: existe dentro dela para dinamitá-la!
Muito ainda temos que mostrar e falar sobre Bertold Brecht e, principalmente, seu importante Teatro Épico. Aguardem as próximas postagens! Por agora, deixamos essa pequena introdução e, mais ainda, o instigante texto que segue abaixo, que nos faz pensar em nosso papel enquanto artista, nossa capacidade e postura criativa e artística perante as engrenagens do mundo das artes e até que ponto podemos [ou não] nos tornarmos mercadoria dentro do esquema capitalista da sociedade.

"Brecht desenvolve de forma mais ampla sua concepção de arte no mundo capitalista. Afirma que há muito tempo as grandes engrenagens do teatro, da ópera ou do jornalismo orientam e decidem tudo a respeito das criações artísticas. Os intelectuais e artistas são ingênuos que ainda mantêm a ilusão de que todo o comércio da engrenagem pretende a valorização de seus trabalhos, quando acontece o contrário: convencidos de possuir o que realmente os possui, defendem uma engrenagem que não controlam mais; um aparelho que não existe mais, como acreditam, a serviço dos criadores, mas que, pelo contrário, voltou-se contra eles e portanto contra sua própria criação (na medida em que isto apresenta tendências específicas e novas, não conformes ou mesmo opostas à engrenagem). O trabalho dos criadores não é mais que um trabalho de fornecedores e assite-se ao nascimento de uma noção de valor cujo fundamento é a capacidade da exploração comercial. Assim, reforma-se a obra de arte para adaptá-la à engrenagem, nunca o contrário. E, acentua Brecht, a engrenagem é determinada pela ordem social: portanto só é bom o que contribui para a manutenção da ordem estabelecida. Uma inovação que não ameace a função social da engrenagem da burguesia decadente (esta função é ser um divertimento vesperal) pode ser acolhida, pois a sociedade absorve, por meio da engrenagem, apenas o que necessita para sua perpetuação. Portanto, só é permitida uma "inovação" capaz de levar uma renovação. Nunca a uma transformação da sociedade - seja ela boa ou má. Mas Brecht não faz esta denúncia apenas para situar a localização do artista e do intelectual dentro do esquema social. Afirma mesmo que a liberdade de criação limitada é um fato progressista, o indivíduo encontra-se cada vez mais implicado nos acontecimentos que transformam o mundo, não pode apenas se exprimir, é solicitado a resolver problemas de ordem geral e é colocado em condições de fazê-lo. Mas o vício, afirma, reside no fato das engrenagens não pertenceram à comunidade: os meios de produção não são ainda a propriedade daqueles que produzem, de modo que o trabalho tem a característica de uma verdadeira mercadoria, submetida às leis do mercado."
[Fonte: PEIXOTO, Fernando: Brecht - vida e obra]


Ah! E não deixem de conferir no final da página a barra de vídeos selecionados sobre Brecht, seus poemas e obra!!!!!